Existe uma fábula filosófica na obra “A República”, de Platão, sobre um homem, Giges, que era um pastor a serviço de um rei e um dia encontrou um anel e, ao colocá-lo no dedo e girá-lo de determinada forma, percebeu que lhe trazia o poder da invisibilidade. E assim, Giges, que até então sempre havia sido um bom homem, passou a cometer as maiores atrocidades quando estava invisível.

Essa história é usada para discutir alguns valores, como moralidade, justiça e poder. As pessoas são boas porque têm medo da punição ou seriam boas mesmo se pudessem fazer o que quisessem sem serem descobertas?

Platão defendia que a justiça era um valor interior, que tornava a alma harmoniosa e que ser injusto, mesmo impune, corromperia a alma. Gosto de pensar como Platão e me parece que o mundo seria absolutamente melhor se as pessoas fossem internamente boas, não apenas pelo pacto social.

Aquela ideia de que “O homem é o lobo do homem”, de Thomas Hobbes, no sentido de que o homem é naturalmente violento, competitivo e egoísta, não me agrada nem um pouco. Prefiro acreditar que o ser humano pode ser naturalmente justo e agir com bons princípios e valores.

Agir de forma justa e fraterna é uma escolha diária e que entendo fazer bem ao homem, mas – e no campo dos pensamentos? Nossos pensamentos, nossa produção mental, aquela voz dentro da nossa cabeça falando o dia inteiro coisas apenas para nós, poderia ser considerada o nosso anel de Giges.

O que pensamos é invisível aos outros. Podemos pensar algo e agir de forma diferente do que pensamos por inúmeros motivos. Podemos ter impulsos agressivos e controlá-los por medo das consequências, por exemplo. Podemos pensar mal de alguém, mas sermos cordiais no trato com ela.

O ponto que coloco para reflexão é: será que deveríamos tentar controlar os pensamentos negativos, policiá-los internamente e tentar substituí-los por pensamentos positivos? Sem dúvida seria uma forma de higiene mental que refletiria positivamente em nossa relação com a vida, pois controlar os pensamentos pode equilibrar a mente.

Se os noticiários reservassem boa parte do tempo de programação para divulgar atividades culturais interessantes, iniciativas humanas que contribuem para a prosperidade social, gestos fraternos e solidários, em vez de uma enxurrada de escândalos políticos, crimes bárbaros e valorização de futilidades e celebridades sem qualquer conteúdo original, talvez as pessoas ficassem nutridas para gerar bons frutos a partir de exemplos bons.

Se dentro dos núcleos familiares as pessoas se respeitassem, se incentivassem os seus próximos a crescer, se fossem mais amorosas, a vida poderia ser mais leve e prazerosa.
Se as pessoas praticassem diariamente a gentileza, veríamos muito mais sorrisos e leveza.

Eu sei que o leitor, a esta altura, provavelmente esteja me julgando como uma pessoa romântica e talvez ingênua. É possível que esteja certo quanto à primeira conclusão. Faz-me bem cultivar a positividade nos pensamentos e nas ações. Afinal, só passamos por este caminho uma vez e, se pudermos contribuir um pouquinho que seja para o progresso da humanidade, para mim já é suficiente. Quanto à ingenuidade, tenho lá minhas dúvidas porque já vivi bastante para testemunhar do que um ser humano é capaz se agir de forma egoísta e sem virtudes, especialmente porque já estive à frente de Varas Criminais, de Júri, de Execução Criminal e de Infância e Juventude.

Ariano Suassuna dizia que o otimista é um tolo, o pessimista é um chato e que bom mesmo é ser um realista esperançoso. Gosto de pensar assim, vou me considerar uma realista esperançosa.
E já que falei em gentileza, uma virtude que julgo das mais importantes, vou encerrar esta crônica com um provérbio que era considerado pelo meu avô materno um lema de vida e que está até gravado em seu túmulo: “Passarei por este caminho apenas uma vez. Portanto, se há algum bem que eu possa fazer ou alguma gentileza que eu possa mostrar a qualquer ser humano, que eu o faça agora. Que eu não adie nem negligencie, pois não voltarei a passar por aqui novamente”.

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Camila Castanho Opdebeeck, juíza de direito, foi professora universitária e é cronista.

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