Comecemos pelo pior: na tarde do dia 25 de janeiro, apoiadores da “caminhada” do deputado Nikolas Ferreira (em prol da anistia de um condenado por tentativa de golpe de estado) ficaram feridos quando um raio atingiu o local onde estavam estacionados, já em Brasília, sob temporal. A imprensa fala em 72 pessoas atendidas, 29 feridos e 8 desses em estado grave, e vale lembrar que os organizadores e o próprio Nikolas, obviamente, foram alertados dos riscos e acharam por bem manter o ato.

Segue-se o fato de o espetáculo da “caminhada” ter como verdadeiro pano de fundo interesses eleitorais, e a forte suspeita de servir como cortina de fumaça para escândalos envolvendo instituições bancárias e certas igrejas, além de “o povo” que caminhou junto ter sido em boa parte senhores brancos de posses, e que podem tranquilamente dispensar alguns dias para uma aventura sem perder o emprego, já que são patrões e não sofrem, nem em pesadelos, as agruras do povo que realmente trabalha para sobreviver – e não tem tempo para micaretas em pleno janeiro, aliás.

O que impressiona é que esse espetáculo deprimente, no qual valdevinos se exibem quase como mártires às custas do dinheiro público e arregimentam seguidores (cúmplices, que fique bem claro) passa a pertencer a uma vasta série histórica de manifestações, discursos, gestos, falas, vitupérios, teatros malfeitos e mentiras, que é o cabedal principal de ações da extrema-direita, e nada nesse furioso e descabeçado circo se orienta para melhorias na vida concreta do povo: seria de se esperar, então, que semelhantes estripulias, que fariam vergonha a saltimbancos, fossem vistas com o devido desprezo por quem leva a vida e os próprios impostos a sério.

Não é o que acontece em relação a significativa parte da população, ou naturalmente não se elegeriam as nulidades que abundam, por exemplo, no atual Congresso. Parte da explicação para isso vem do discurso simplório, moralista, ferrenhamente maniqueísta e com tintas religiosas fortes da extrema-direita, tudo embalado com menções a um passado melhor (ou glorioso), que a “maldosa esquerda” destruiu – pois é obrigatório eleger um inimigo a quem atacar.

Um discurso que cabe melhor aos estômagos que às mentes, porque fácil de ser digerido, e a ele se somam as ações espetaculares ou simplesmente patéticas, cujo único objetivo é angariar atenção para cimentar o objetivo maior, o ápice: chegar ao poder. E muitos dos personagens mais deletérios desse movimento extremista de fato chegaram, com resultados previsivelmente desastrosos gestados por suas atitudes e ideologias – o principal deles agora é presidiário na chamada “Papudinha”.

E, como sabemos, uma linha genética pode ser traçada a partir desse caldo atual de veneno, e ela passa pelos modos de agir que lançaram a Alemanha e a Itália da década de 30 numa guerra que destruiu seus ditadores, mas também jogou suas populações no desastre. Assim, por fanfarrões e ridículos que sejam os astros da direita radical hoje, seja o alucinado Trump, Milei ou parlamentares brasileiros, o risco que sua visão de mundo ignara e estreita traz é bem sério e concreto, não cabendo o menor vacilo em relação a combatê-la de frente.

Pois, como a História já nos mostrou mais de uma vez, algo que mais se parece com uma comédia grotesca de personagens medíocres e risíveis pode muito bem ser prenúncio de tragédias.

Alexsandro Sgobin é professor e diretor do Sinpro Campinas e Região

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