A cinza escola (versos tortos para a torta escola cívico-militar)
Adestrar é o caminho para a disciplina,
diz o velho soldado calejado e sisudo
“descançar”, marchar, “continêcia”, regurgita
às crianças curiosas, cismadas com o parrudo.
Estudar filosofia ou as questões duras
dos entraves da pátria sociedade ferida,
ai, não!, que isso seria cansativa gastura
vejam que nisso não tem o fascio guarida.
Que seja ao arrepio da Carta Magna a farsa,
não há que se bater, escutem bem:
já a Corte mais alta, quem o diria, comparsa
aprova e abençoa a tragicomédia também.
Uniformes e ordem, marcha e manual:
“Às armas!”, quase se ouve o soldado gritar.
– “Um tanto mais de História, senhor caporal?”
– “Não!”, diz ele; “criticar e pensar, isso tudo é mau”.
Não seria melhor, perguntam tantos, incontestes
gastar todo esse ouro com infraestrutura
aumentar os parcos ganhos dos mestres
sã merenda, móveis os bons, humana arquitetura?
Não, pensa o garboso governador em seu palácio:
mais alto que toda essa choradeira,
é o viril adestramento, quiçá o pancrácio;
aprender é o de menos, ó, esquerda faladeira!
Pois quem não erra?, ditou o eleito
mesmo que aqui e ali se ouça um apertão,
um assédio, um xingar, com efeito,
ora!, quem nunca agiu como poltrão?
E altissonante se vai o Freitas confiante
loas rendendo à ditadora doutrina (é preciso lembrar?)
meninas e meninos marcham, bamboleantes
no mau teatro cinza da escola cívico-militar.
Alexsandro Sgobin é professor e diretor do Sinpro Campinas e Região

