Em análise do assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, o geógrafo e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, Elias Jabbour, afirma que os Estados Unidos consolidam uma “ditadura militar global” e tentam atingir o Brics com essa nova ação militar.
Jabbour tem sido uma das principais vozes nacionais a analisar o cenário geopolítico mundial nos últimos anos. Para o professor, que teve passagem pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos Brics, a ação militar contra o Irã tem um roteiro muito bem definido e “selvagem”.
No seu entendimento, os ataques deste fim de semana são a continuidade do que Israel iniciou contra o povo palestino na Faixa de Gaza: “não se tratava tão somente de expulsar e dizimar o povo palestino, mas também atrair os Estados Unidos para um objetivo estratégico maior de Israel, que é destruir o poderio militar iraniano, iniciando pela clássica forma como Israel e os Estados Unidos operam, que é assassinando as lideranças de seus inimigos. Isso é um ato selvagem, mas que segue um roteiro muito bem definido”, diz.
Como examina, Israel quer construir um novo Oriente Médio “à sua imagem e semelhança”. Ele acredita que o presidente dos EUA, Donald Trump, foi atraído para o conflito não apenas por interesses comerciais, como a eventual tomada do petróleo iraniano (a terceira maior reserva do combustível fóssil mundial).
Trump também estaria sendo chantageado pelo governo do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, por ter se envolvido com Jeffrey Epstein, bilionário que se suicidou na prisão, em 2019, quando respondia por abuso sexual, pedofilia e tráfico humano.
“Hoje, Israel, com essa história envolvendo Epstein, que era um agente do Mossad (agência de espionagem de Israel), tem os Estados Unidos na mão. Trump, certamente, está sendo altamente chantageado para fazer o que ele fez [atacar o Irã], porque não foi isso que ele prometeu”, afirma Jabbour, ao apontar a contradição de Trump, quando prometeu em campanha eleitoral que não iria se envolver em novos conflitos.
“Contraditoriamente ao que Trump dizia antes de voltar ao governo, os Estados Unidos lançaram mais de 500 ataques desde que ele reassumiu [a presidência]. O mundo foi virado de cabeça para baixo. Um chefe de Estado foi sequestrado na Venezuela [Nicolás Maduro], Cuba está sendo esgotada por um bloqueio assassino. Uma série de conflitos tem irrompido mundo afora, tanto na América do Sul quanto na África, por exemplo”, complementa.
“Ditadura militar global”
O geógrafo considera que, ao concretizar esta nova ação militar, Trump caminha para impor uma ditadura pela força com repercussão mundial, que tem como finalidade atacar propostas contrárias aos seus interesses.
“[É] a consolidação de uma ditadura militar global por parte dos Estados Unidos. Ou seja, os norte-americanos, hoje, mostram que são o único país capaz de intervir em todos os lugares do mundo”, examina.
Assim, parte desse recado dos EUA, após ter formado um consórcio para atender aos interesses de Israel, agora culmina em ações contra o Brics e contra a China, sendo que o “tarifaço” tem enfrentado resistência interna.
“Também é uma tentativa de colocar os Brics em xeque. Mais do que isso. Ao atacar o Irã e tentar desmoralizar o governo iraniano com o assassinato de seu líder, tenta-se implodir a iniciativa Cinturão e Rota [da China] a partir do Irã, que é uma das regiões mais estratégicas para essa iniciativa. Nesse sentido, temos que pensar muito bem, inclusive, o conceito de multipolaridade nesse momento, porque o mundo está de cabeça para baixo e os norte-americanos estão demonstrando uma capacidade militar muito grande de intervir mundo afora”, ressalta o professor.
Em 2024, o Irã se tornou país-membro do grupo do Brics. Além disso, o país persa tem papel fundamental na estratégia chinesa Cinturão e Rota pela posição geográfica estratégica que liga a Ásia Ocidental à Ásia Central; pelo grande potencial energético; o acesso ao Golfo Pérsico; bem como pelo fato de Pequim e Teerã compartilharem arranjos anti-hegemônicos longe da órbita de Washington.
Brasil
De forma complementar à reflexão, porém não menos importante, Elias faz um alerta sobre a possibilidade da influência estadunidense nas eleições de 2026 no Brasil.
Ele considera a movimentação de Trump um indício de que a extrema direita mundial tentará impedir que o presidente Lula se reeleja.
“Certamente estaremos sob pressão direta de Trump e as próximas eleições no Brasil serão sob influência dos Estados Unidos. Uma intervenção não militar ocorrerá no país, se já não está ocorrendo, para colocar fim à experiência dos governos populares aqui no Brasil, que é um alvo estratégico”, avisa Jabbour, ao concluir sua análise com uma manifestação de solidariedade ao povo e ao governo iraniano.
Fonte: Vermelho

