Realizado pelo Sinpro Campinas, em parceria com a APROPUCC e o Centro de Estudos Sindicais (CES), o evento “A Violência que nos aterroriza: quais as causas dos ataques às escolas? E o que fazer?” foi transmitido ontem (29) pelas redes sociais dessas entidades e contou com a palestra do professor e doutor em Educação e História (UERJ/PUC-SP), Gaudêncio Frigotto.

Para defender a sua tese – de que o caminho para combater a violência de inclinação nazifascista é não se render ao medo –, Frigotto fez um breve histórico da violência no Brasil e destacou que, a partir de 2005, ela começa a ganhar contornos até então inéditos ou pouco comuns no País: o ódio de natureza moral e ideológica contra professores. Ele cita o surgimento do movimento “Escola Sem Partido” como o marco inicial do clima sufocante de hostilidade que hoje paira sobre a vida brasileira.

“Os sinais estavam postos, mas demoramos a perceber – e este talvez tenha sido nosso erro. Os membros do ‘Escola Sem Partido’ advogam que a educação das crianças deve ser prerrogativa da igreja e das famílias e que a escola deveria ensinar apenas o que fosse permitido por essas instituições, conforme seus valores morais. Muitos alunos começaram a ser instruídos a filmar e denunciar seus professores. Passamos a ser acusados de ‘doutrinadores’, ‘comunistas’ e outras coisas porque abordamos assuntos que vão de encontro ao que este grupo pensa acerca da história, da democracia e de outros assuntos”, disse.

Para o professor, o avanço da perseguição aos docentes e a destruição da imagem da escola como um local de acolhimento e aprendizado foi fundamental para que a “paranoia anticomunista”, que havia sido erradicada com a abertura política pós-ditadura, voltasse a servir de base para manifestações de ruas entre 2013 e 2016. “O desfecho foi um golpe de estado que decretou a ascensão de um governo entreguista, alinhado com a extrema direita, e depois de um governo autoritário de inspiração neofascista, que aprofundou e liberou o ódio contra o pensamento crítico e divergente”, afirmou.

Ainda conforme Frigotto, o ataque aos Poderes no dia 8 de março de 2023 pode ser visto como o ápice da tentativa da extrema direita de destruir o pacto social estabelecido pela Constituição de 1988. Pouco antes e pouco depois desse evento, atentados terroristas contra escolas (como o massacre contra crianças cometido em uma creche de Blumenau) passaram a acontecer com relativa frequência e, aparentemente, de modo coordenado. “A violência é estrutural no Brasil, está nos primórdios de nossa fundação, mas a matança de professores, crianças e adolescentes dentro do ambiente escolar não era algo comum. Essas chacinas parecem seguir determinados métodos. Quem está por trás? Quais os interesses em jogo?”, perguntou o palestrante.

Para ele, ao disseminar o medo na sociedade, e especialmente nas escolas, os grupos nazifascistas encurtam o caminho para a tomada do poder, uma vez que a tendência é que a população em geral passe a apoiar políticas mais autoritárias e repressivas. “Responder a violência com mais violência seria um tiro no pé. Nos Estados Unidos, as escolas hoje mais se assemelham a prisões e, mesmo assim, continuam sendo alvos de ataques. A militarização das escolas não é a resposta mais adequada, mas sim a organização coletiva”, disse.

Gaudêncio Frigotto defendeu medidas emergenciais como a responsabilização das plataformas digitais que abrigam grupos nazifascistas e ajudam a disseminar fake news e mensagens de ódio e o endurecimento do controle sobre a venda e a posse de armas de fogo no Brasil. “O comércio de armas, flexibilizado e incentivado por Bolsonaro, precisa ser desmontado com urgência”, destacou.

Por fim, o professor disse que o medo não pode paralisar as atividades das escolas. “Temos que fazer um trabalho de conscientização com a comunidade escolar, pois não podemos ceder ao medo. A negação da política e do pensamento crítico é o pior caminho. Temos que falar mais sobre essas questões e nos organizarmos coletivamente”, afirmou.

A presidente do Sinpro Campinas, Conceição Fornasari, elogiou as reflexões trazidas pelo palestrante e acrescentou que os professores estão “no caminho certo para “vencer essa batalha contra o ódio”. Segundo ela, “a categoria tem muito o que fazer para fortalecer a democracia, mas o fará com esperança e sem se deixar intimidar pelas ameaças da extrema direita”.

Amanhã, às 17h, será a vez da professora, bióloga, doutoranda pela Unicamp e diretora do Sinpro Campinas Paola Guidi, junto ao professor da PUC-Campinas e doutor em Filosofia pela USP Douglas F. Barros, debaterem o mesmo tema. A palestra será transmitida pelo Facebook do Sinpro, da APROPUCC e do CES.

 

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