
Em 24 de agosto de 1954, o Brasil despertou sob o impacto de um gesto extremo: o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Seu disparo no peito, no Palácio do Catete, não foi apenas um ato pessoal, mas um acontecimento que mudou os rumos da política nacional. Com sua “carta-testamento”, Vargas buscou transformar a tragédia em símbolo, lançando-se como mártir diante do povo e contra as elites que o pressionavam a deixar o poder.
O gesto dramático coroava uma trajetória marcada por contradições. Getúlio foi o “pai dos pobres” que consolidou os direitos trabalhistas, instituiu a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), impulsionou a Petrobras e deu forma a um projeto de soberania nacional. Seu governo também valorizou a escola pública como ferramenta de emancipação e cidadania. Essas conquistas, fundamentais para a classe trabalhadora, seguem até hoje como pilares da vida social e política brasileira.
Mas Vargas também foi o ditador do Estado Novo (1937-1945), regime autoritário que perseguiu comunistas, censurou a imprensa e restringiu as liberdades democráticas. Essa dualidade faz parte de seu legado: um estadista capaz de promover avanços sociais profundos, mas também responsável por um período de sombras políticas.
Ao lembrarmos os 71 anos de sua morte, é preciso reconhecer que muitas das sementes lançadas por Getúlio só floresceram plenamente porque o Brasil atravessou décadas de democracia. A ampliação da cidadania, a defesa da escola pública e a luta por direitos trabalhistas são conquistas que exigem liberdade política para prosperar.
O suicídio de Vargas transformou-se em mito, mas seu verdadeiro legado não está apenas no gesto final. Está nas instituições, nas leis e nos direitos que ajudou a construir — e na certeza de que, sem democracia, essas conquistas sempre estarão ameaçadas. Cabe a nós, professores e trabalhadores organizados, seguir defendendo a soberania, a educação pública e os direitos sociais que Getúlio ajudou a inscrever na história do Brasil.