Milton Santos, geógrafo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), completaria 100 anos no último domingo (3). Ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud (considerado o Nobel da área), em 1994, o professor foi autor de mais de 30 livros e 400 artigos científicos publicados em diversos idiomas. Entre as suas principais obras estão Espaço Dividido: Os Dois Circuitos da Economia Urbana dos Países Subdesenvolvidos (1970), A Natureza do Espaço (1996) e Por uma outra globalização (2000).

O baiano de Brotas de Macaúbas nasceu em 3 de maio de 1926. Faleceu aos 75 anos, deixando um legado fundamental para as ciências humanas, com os estudos sobre a globalização e o Sul global, dando forma a uma abordagem original para estudar o mundo a partir da sua “periferia”, rompendo com autores antigos que operavam análises fundamentadas em conceitos eurocêntricos.

Assim, diante do avanço acelerado das tecnologias, das tensões geopolíticas que reconfiguram o comércio global e da persistência da pobreza, o pensamento de Milton Santos segue atual ao mostrar que a globalização aprofunda desigualdades e organiza o espaço de forma seletiva, privilegiando poucos e marginalizando a maioria.

Considerado um dos maiores geógrafos do mundo, para além da USP, também teve passagens no Brasil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Perseguido pela ditadura militar, foi para o exílio e ganhou o mundo ao ministrar aulas e atuar como pesquisador na França (Universidades Toulouse-Le Mirail, Bordeaux e Paris-Sorbonne), Estados Unidos (Columbia University e Massachusetts Institute of Technology-MIT), Canadá (Universidade de Toronto), Venezuela (Universidade Central da Venezuela e Universidade de Zulia), Tanzânia (Universidade de Dar es Salaam) e Peru (Universidade de Lima).

“O mundo parece, agora, girar sem destino. É a chamada globalização perversa. Ela está sendo tanto mais perversa porque as enormes possibilidades oferecidas pelas conquistas científicas e técnicas não estão sendo adequadamente usadas”, escreveu Milton Santos em artigo na Folha de S. Paulo.

Ao analisar as desigualdades sociais, a obra de Santos ainda contribuiu para incorporar, de forma estrutural, a crítica ao racismo na análise do espaço, do capitalismo e da globalização. Ainda que não tenha teorizado o tema de forma isolada, a sua abordagem procurou desconstruir o mito da democracia racial, segundo o geógrafo Tadeu Batista Alves, que estudou o silenciamento da academia sobre a questão do negro na obra do autor.

“Muitas vezes foi dito que Milton Santos não discutia a questão do negro no Brasil, mas quando ele está abordando a cidadania, ele está expondo exatamente como o negro deve ser inserido na sociedade brasileira. Nesse ponto eu destaco como seu pensamento é vivo, pois trata de questões como o pertencimento ao espaço e a situação dos corpos negros ou os diferentes corpos na cidade”, disse Alves ao Jornal da USP.

“Referência”

A data tem sido lembrada por autoridades e personalidades. O presidente Lula publicou nas redes sociais que a obra de Milton Santos “é referência para entendermos as desigualdades da globalização e os potenciais de transformação que vêm das periferias. Pouca gente conseguiu compreender o Brasil como este intelectual baiano que, não por acaso, é considerado um dos mais importantes geógrafos de nosso país – e de todo mundo. Em tempos como o que vivemos hoje, com grandes mudanças geopolíticas, a obra de Milton Santos continua extremamente atual – e necessária”.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) também destacou o legado do pensador: “Mesmo crítico à globalização e ao capitalismo, Santos nunca cedeu ao pessimismo. Afinal, nas suas palavras: ‘o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir’ […] No centenário de Milton Santos, tive a honra de ter aprovado na Câmara dos Deputados um projeto de minha autoria, que coloca seu nome no Livro dos Heróis da Pátria. Esse é um reconhecimento do heroísmo de Santos: um intelectual negro a serviço do povo.”

O também geógrafo e pré-candidato a deputado federal Elias Jabbour (PCdoB-RJ) publicou um vídeo em que lembra da importância de Milton na sua formação acadêmica, quando foi orientado por ele na iniciação científica no curso de Geografia da USP.

“Quero deixar minha homenagem a esse intelectual brasileiro gigantesco. Pouco valorizado, nordestino, negro, um homem único no seu tempo […] Do ponto de vista do marxismo, foi um intelectual que recoloca no debate a categoria de formação econômica e social, no artigo épico dele, de 1978: ‘Sociedade e Espaço: a Formação Social como Teoria e como Método’. Uma contribuição singular para a geografia brasileira e mundial, e uma contribuição singular para o marxismo. Eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa trajetória e ter tido ele como uma das minhas principais referências”, afirmou Jabbour.

O centenário do nascimento de um dos maiores pensadores brasileiros será celebrado com diversos eventos em universidades, entre eles o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, que acontece de 4 a 8 de maio na USP, podendo ser acompanhado por transmissão on-line.

Do Portal Vermelho

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