As recentes declarações do governador de Romeu Zema sobre trabalho infantil não podem ser tratadas como simples “fala mal colocada”. Elas revelam uma concepção de sociedade que naturaliza desigualdades históricas e relativiza direitos conquistados com décadas de luta social.
Ao afirmar que crianças e adolescentes deveriam “ajudar trabalhando”, o governador ignora não apenas a legislação brasileira, mas também a realidade concreta do país. No Brasil, trabalho infantil não significa aprendizado saudável ou “formação de caráter”. Significa, na maior parte das vezes, pobreza, abandono escolar, exploração e perpetuação da desigualdade.
Lugar de criança é na escola, estudando, convivendo, brincando e tendo garantido o direito pleno à infância.
A Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a legislação trabalhista não existem por acaso. São instrumentos construídos para proteger meninas e meninos de jornadas exaustivas, violência, acidentes, evasão escolar e da negação de oportunidades. O trabalho antes da idade permitida compromete o desenvolvimento físico, emocional e intelectual, além de reduzir drasticamente as chances de ascensão social.
Os números mostram isso com clareza. Segundo dados oficiais, mais de 6 mil crianças e adolescentes foram retirados de situações de trabalho ilegal entre 2023 e 2025 por ações de fiscalização do Ministério do Trabalho. Ainda assim, cerca de 1,9 milhão de crianças e adolescentes seguem em situação de trabalho infantil no país. Não se trata de uma tradição a ser celebrada, mas de uma tragédia social a ser combatida.
Também é preciso enfrentar uma hipocrisia recorrente nesse debate. Quando empresários e políticos milionários dizem que “trabalhar desde cedo faz bem”, quase nunca estão falando da criança pobre que vende bala no farol, corta cana, trabalha em oficinas precárias ou abandona a escola para complementar a renda da família. Falam de experiências pessoais vividas em contextos de privilégio, segurança financeira e patrimônio familiar — uma realidade completamente distinta da maioria da população brasileira.
Romantizar o trabalho infantil é uma forma cruel de normalizar a pobreza.
O discurso que tenta transformar exploração em virtude costuma caminhar lado a lado com ataques às políticas sociais, aos direitos trabalhistas e ao investimento público em educação. Não por acaso, os mesmos setores que defendem “menos Estado” para proteger os vulneráveis frequentemente apoiam benefícios fiscais bilionários para grandes grupos econômicos e processos de privatização de serviços essenciais.
Para o Sindicato dos Professores de Campinas e Região, defender a infância é defender a escola pública, os direitos sociais e a dignidade humana. Criança não precisa “aprender a trabalhar cedo”; precisa ter acesso à educação de qualidade, alimentação, cultura, esporte, lazer e proteção social.
É na escola que se constrói autonomia. É na educação que se rompe o ciclo da pobreza. É garantindo direitos — e não retirando-os — que se constrói uma sociedade mais justa. Toda vez que o trabalho infantil é tratado como algo aceitável, o país anda para trás.
O Brasil precisa ampliar oportunidades para crianças e jovens, não antecipar o peso da sobrevivência sobre aqueles que ainda deveriam estar vivendo plenamente sua infância.

