“O jogador de futebol é muito importante e defenderemos suas reivindicações até a morte.” Diego Maradona proferiu essas palavras em 1997, em uma das reuniões da Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (AIFP), o sindicato de jogadores que ele idealizou, fundou e presidiu, e com o qual buscou confrontar coletivamente a poderosa FIFA.
Ao longo de sua carreira, Maradona compreendeu que a FIFA havia convertido o futebol de esporte em negócio, onde os jogadores eram a mercadoria. Mesmo em seus últimos anos como jogador profissional, ele teve um papel de liderança na defesa dos direitos dos jogadores. “Temos que lutar por um sindicato forte, porque as pessoas não vão ao estádio por causa dos dirigentes dos clubes”, declarou ele em uma frase que se tornou célebre.
“Que joguem e calem a boca”, disse João Havelange, presidente da FIFA, quando, na Copa do Mundo de 1986, a Copa do Mundo de Maradona, os jogadores protestavam porque as partidas principais estavam sendo disputadas ao meio-dia. O motivo? A grade de programação da televisão europeia.
O calor sufocante do México e seus efeitos no físico dos jogadores eram menos relevantes do que as negociações comerciais do que Eduardo Galeano definiu como a “telecracia”: a Copa do Mundo dirigida por Guillermo Cañedo, vice-presidente da Televisa e “cortesão de Havelange em uma das vice-presidências da FIFA, outra empresa privada que também não presta contas a ninguém”.
Em 1995, Maradona conseguiu reunir algumas das maiores estrelas do futebol em torno desse projeto coletivo. Ele contou com o apoio do francês Eric Cantona, que afirmou: “Maradona é para o futebol o que Mozart é para a música e Rimbaud para a poesia. E é assim que ele será lembrado daqui a 100 anos.”
Estrelas como o búlgaro Hristo Stoichkov, os italianos Ciro Ferrara, Gianfranco Zola e Gianluca Vialli, o francês Laurent Blanc, o belga Michael Preud’Homme, os brasileiros Bebeto e Rai, o liberiano George Weah, o sueco Thomas Brolin, o dinamarquês Michael Laudrup e o colombiano Carlos Valderrama, entre outros, juntaram-se ao projeto.
Em uma entrevista na época, Maradona afirmou: “Todos sabem o que eu sei, mas poucos se atrevem a se opor a Blatter, Havelange e Grondona”. Sobre os objetivos do sindicato dos jogadores, Diego disse: “Queremos nos reunir e planejar, nós mesmos, a Copa do Mundo e tudo o que diz respeito aos jogadores. Eles não podem fazer planos sem saber o que é ter jogado, sem saber o que um jogador sente. Eles não têm esse direito”.
Poucos dias depois, em 6 de novembro de 1995, Maradona recebeu o título de “Professor Inspirador de Alunos Sonhadores” na Universidade de Oxford. O jornalista Roberto Parrotino relatou esse evento no jornal Tiempo Argentino e o resumiu da seguinte forma: “Em Oxford, surge o sindicalista Diego”.
Parrotino resumiu a apresentação de Diego da seguinte forma: “Maradona, no final, falou por 27 minutos. Falou sobre os jogos improvisados nos terrenos baldios de Fiorito e a relação ‘mágica’ entre o futebol e os torcedores. Sobre uma vocação e um destino. Mas concentrou suas palavras no ‘desenvolvimento dos meios de comunicação’ e na transformação do futebol em um ‘esporte-negócio’. Citou o ‘assédio dos figurões do mundo do futebol’ e ‘a crença quase universal de que os jogadores de futebol eram pessoas incultas, muito rudimentares ou primitivas’. Jogadores de futebol sem ‘possibilidade de acesso à educação, boa alimentação, roupas ou remédios’. ‘Aos poucos, percebemos’, disse ele, ‘essa necessidade de humanizar nossa profissão’. Maradona havia fundado um sindicato dias antes em Paris, juntamente com outras figuras: a Associação Internacional de Futebolistas Profissionais. Em Oxford, surge o sindicalista Diego.”
Mas a FIFA não deixaria o fato passar batido. Galeano relata em seu livro Fechado por motivo de futebol que “em dezembro de 1995, a revista brasileira Placar entrevistou Joseph Blatter, número dois da FIFA, o vice-rei dos negócios do futebol. O jornalista lhe perguntou sua opinião sobre o sindicato internacional dos jogadores, que estava sendo formado. ‘A FIFA não conversa com os jogadores’, respondeu Blatter. ‘Os jogadores são funcionários dos clubes.’”
Por parte dos jogadores, surgiu um apoio inesperado. Galeano escreveu: “Alguns meses depois, em outubro de 1996, o sindicato recebeu uma carta de Pelé, que era o rei da arte do futebol. Apesar de suas conhecidas desavenças com Maradona, figura central do sindicato, Pelé acolheu a iniciativa e anunciou: ‘Vamos formar a melhor equipe de todos os tempos, a equipe dos atletas livres’”.
Para o lançamento oficial do sindicato, Maradona e seus comparsas organizaram uma partida de futebol disputada em 27 de abril de 1997, no Estádio de Montjuïc, em Barcelona. Um time europeu enfrentou um time que representava o resto do mundo.
“Blatter é um vendido, e Havelange, que sempre jogou polo aquático, toma decisões por mim, algo que não pode continuar. Eu só diria a Havelange e Blatter que, a partir deste sindicato, vamos defender os jogadores contra quem quer que seja”, declarou Maradona na época.
Estavam todos lá: um time de estrelas do mundo todo, abrangendo várias gerações. Lendas como Alfredo Di Stéfano, Johan Cruyff e Sócrates estavam presentes, assim como jogadores da ativa como Zinedine Zidane e Jürgen Klinsmann, e muitos membros da organização de Maradona, incluindo Stoichkov, Weah e Brolin.
“A Associação Internacional de Futebolistas Profissionais iniciou suas atividades em Barcelona com uma jornada de atividades contra o racismo e a discriminação. Foi um batismo eloquente, profundamente conectado à história e à realidade do esporte mundial. Os maiores astros do futebol sofreram racismo por serem negros ou mestiços, ou sofreram discriminação por serem pobres. E, em muitos casos, combinando cor da pele e origem social, foram vítimas de ambas as humilhações simultaneamente. Em campo, encontraram uma alternativa ao crime ao qual nasceram condenados pelas estatísticas”, escreveu Galeano sobre a partida.
O sindicato fracassou. A FIFA e os interesses comerciais prevaleceram sobre o bem-estar dos jogadores. Mas Maradona nunca deixou de lutar pelos direitos econômicos e a saúde dos jogadores e, em última instância, sua participação nas decisões que envolvem o esporte do qual são os únicos protagonistas.
Ari Lijalad é graduado em Ciência Política (UBA) e jornalista no El Destaque.

