Iniciado o período eleitoral, numa das eleições mais importantes da história do país (senão a mais importante), é hora de avaliar os feitos dos atuais ocupantes das cadeiras no Executivo e Legislativo com atenção redobrada, a fim de que não recoloquemos nos cargos aqueles que pouco ou nada prezaram pela melhoria das condições do povo trabalhador, apenas para nos situarmos no universo que mais nos interessa; e dentro desse universo está o nosso grupo, professores e professoras sob o governo Tarcísio de Freitas, cujos “esforços” (…) em prol da Educação paulista devem ser desmascarados um a um.

Comecemos (e não pela primeira vez sobre esse assunto, mas o absurdo dela o exige) com a famigerada militarização de escolas públicas, as chamadas escolas “cívico-militares”, projeto que vem sendo implementado com vigor pelo ex-militar que ora ocupa a cadeira maior no Palácio dos Bandeirantes. Ora, desconhecendo, ou fingindo desconhecer por completo as complexas variáveis que levam à indisciplina em sala de aula, que passam por problemas domésticos, péssima infra-estrutura de muitas das escolas públicas, excesso de alunos em sala, situação de vulnerabilidades de inúmeras crianças e jovens, uma cultura escolar quase que exclusivamente punitiva que já deu mostras ser malsã faz décadas, o senhor governador põe a marchar alunos e alunas, convencendo a muitos de que tal pantomima “educará” os infantes e resolverá a maioria dos problemas graves da educação pública. Contudo, algo vai mal: denúncias de assédio, abuso, racismo e preconceito, além de atitudes agressivas contra estudantes aparecem aqui e ali, contra os policiais militares aposentados que coordenam o modelo cívico-militar, (ex-soldados muito bem pagos, aliás, para tocar o sonho fascista de Tarcísio); crianças já foram filmadas cantando versos de guerra, nada educativos, para dizer o mínimo.

Uma iniciativa ideológica (e não é a extrema-direita e seus comparsas que grita alucinada contra a “doutrinação” e as “ideologias” nas escolas?…) que raciocínio algum, exceto o mais torto e canhestro, nenhum estudo técnico, sociológico, pedagógico, justificaria, pois só existe uma justificativa e bem o sabe o senhor Tarcísio e seus conselheiros: trata-se de doutrinação dos mais vulneráveis, e a doutrinação tem o miasma característico do autoritarismo e da ideologização marcial, tudo com tintas de fundamentalismo religioso – em uma palavra, a cartilha antidemocrática rediviva.

Ora, não nos faltam estudos de fôlego sobre a Educação brasileira, saídos das Universidades e centros de pesquisa, são inúmeras as experiências alvissareiras de educadores e educadoras em todos os cantos do território, sobram exemplos de oficinas, projetos, construções educativas populares que mostram resultados de excelência. Métodos e metodologias surgem a todo instante diretamente dos cotidianos de sala de aula por mãos de bons mestres e mestras, em diálogo com seus educandos e educandas. Mas o governador parece ter escolhido ignorar por completo tudo isso, que provavelmente lhe aborrece por saber “às coisas da esquerda”, e aposta tudo em crianças e jovens “apresentando o turno, sem novidades”, numa imitação patética da vida castrense.

Bem, cabe afinal fazer novamente ao governador a pergunta que muitos já fazem desde o início da aventura cívico-militar: por que sua Excelência não levou tal projeto para escolas de elite, e se restringiu a querer domesticar, perdão, “educar”, apenas os filhos e filhas das classes mais vulneráveis?

Também seria interessante saber do ex-capitão Tarcísio se lhe pareceria coerente um advogado tentar operar um apêndice ou o fresador erguer uma casa; se não, com que fantásticos malabarismos mentais se justifica que PM´s adentrem escolas, por mais “treinamento” para isso se alegue terem recebido? E com que lógica estranhíssima se defende benefícios em um modelo que, é sempre bom lembrar, fere a própria Constituição? Com que embasamento teórico se tenta alimentar a ilusão de que repetir ad nauseam ordem unida e continências elevará os índices escolares? Quais dados concretos e devidamente levantados mostram que modelos escolares semelhantes ao cívico-militar que delicia a extrema-direita tupiniquim, deram certo em outros lugares do mundo?

Na verdade, o que houve foram modelos que tinham sombrias semelhanças com as escolas que Tarcísio e seus seguidores aplaudem e incensam: ocorreram, por exemplo, em alguns países da Europa nas décadas de 1920 e 1930.

Parece-nos que não é preciso dizer mais.

Alexsandro Sgobin é professor e diretor de Educação do Sinpro Campinas e Região

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