Tudo que é sólido desmancha no ar. A expressão, conhecida também pelo título da obra de Marshall Berman, nunca pareceu tão adequada quando olhamos e pensamos nos acervos físicos de nossas bibliotecas.

Se você já teve a oportunidade de visitar um acervo de obras raras, provavelmente experimentou a sensação de estar entrando em contato com uma espécie de tesouro perdido. Alguns acervos da USP, como os da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, do Instituto de Estudos Brasileiros e da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, nos colocam diante de algo que vai além do conteúdo registrado nos livros. Há a sensação provocada pelo lugar, pelo cheiro, pelo espaço, pela materialidade dos exemplares e pelo próprio cuidado que envolve seu acesso.

Esses acervos mostram também como a sociedade foi sendo construída e como o mundo editorial registrou essa sociedade ao longo do tempo por meio do livro. O livro, nesse sentido, não é apenas um suporte para um conteúdo. É também um objeto de cultura material. Sua forma, seu papel, sua impressão, suas marcas e sua própria existência física registram uma determinada época e uma determinada maneira de produzir, guardar, circular e acessar o conhecimento.

A restrição, o modo de entrar, as condições de consulta e os procedimentos necessários para ter contato com determinados documentos fazem parte dessa experiência com as obras raras. Irene Vallejo relata parte dessa trajetória em O infinito em um junco, ao descrever sua própria epopeia de pesquisa e de acesso a conteúdos em diferentes instituições. Acervos restritos, funcionários, autorizações e procedimentos fazem parte desse universo em que o acesso ao conhecimento também depende do acesso ao objeto que o contém.

O que estamos vivendo neste momento representa uma transformação silenciosa dessa relação.

Com o avanço dos acervos digitais, dos livros eletrônicos, das plataformas e dos serviços de streaming de conteúdos, todo o acervo físico ainda presente nas bibliotecas caminha, progressivamente, para uma condição de raridade.

Não se trata necessariamente da definição técnica de obra rara utilizada atualmente. Trata-se de pensar a raridade provocada pela própria transformação dos modos de produção, circulação e consumo da informação. O mundo editorial continua e continuará produzindo livros físicos, mas o modo de guarda, preservação e cuidado com esses materiais ganha outra dimensão à medida que sua produção e seu uso passam a dividir espaço com uma quantidade cada vez maior de conteúdos digitais.

Essa transformação já acontece diante de nós. Consumimos informações em ambientes digitais, assistimos a conteúdos audiovisuais, utilizamos plataformas, acessamos livros e documentos sem que seja necessário possuir fisicamente o suporte no qual aquele conteúdo foi produzido.

A materialidade do suporte, portanto, começa a se desfazer.

E essa mudança nos coloca diante de uma questão: qual é o papel da biblioteca nessa transição dos acervos físicos para conteúdos disponibilizados em suportes imateriais?

Durante muito tempo, a biblioteca foi pensada também a partir de sua necessidade espacial. Grandes prédios, andares inteiros, estantes, depósitos, mesas e diferentes ambientes eram necessários para disponibilizar e guardar grandes acervos. O tamanho das coleções interferia diretamente na organização e até mesmo na arquitetura das bibliotecas.

Com o digital, parte dessa organização espacial deixa de ser necessária.

O que acontece com a biblioteca quando os acervos passam a ser disponibilizados por meio de plataformas e produtos de streaming? Uma das respostas possíveis é imaginar uma biblioteca sem acervos físicos.

Caminhamos para uma imagem de biblioteca que ainda pode parecer estranha: entramos em uma biblioteca e não encontramos nenhuma estante. Há um espaço físico, há pessoas, há profissionais, há dispositivos, mas o acervo está disponível por meio de acessos autenticados a plataformas e conteúdos que podem ser consultados em tablets, computadores e outros dispositivos eletrônicos.

Essa transformação não significa simplesmente eliminar o físico e substituí-lo pelo digital. É necessário construir um novo projeto de biblioteca, pensado a partir da hibridez de seus acervos e de um movimento que caminha para uma disponibilização cada vez mais expressiva de conteúdos em formato digital.

Se o espaço físico muda, também é necessário repensar a própria unidade de informação.

Para que servirá esse espaço? Como ele será utilizado? Quais serão os novos modos de engajamento? Quais serão as propostas capazes de fazer com que a comunidade continue reconhecendo a biblioteca como um espaço necessário?

Essas transformações impactam diretamente a formação de um outro profissional dentro do campo dos Estudos da Informação.

O bibliotecário, ou profissional da informação, precisa de outro olhar sobre sua atuação. Em muitos contextos, não precisará mais realizar parte do trabalho tradicionalmente associado ao tratamento de grandes quantidades de materiais físicos, nem necessitará de extensos espaços destinados a essas atividades. Muitos conteúdos chegarão às bibliotecas em formato digital e, em diferentes situações, preparados pelas próprias plataformas para o consumo e o uso pelos usuários finais.

Coloca-se, então, outra questão: que profissional é esse?

É um profissional que precisa saber atender, engajar e envolver suas comunidades. Sua formação também precisa ser pensada a partir de outro olhar, considerando os diferentes segmentos e campos de atuação e as especificidades de cada contexto em que esse profissional atua.

A biblioteca entra, portanto, em um novo momento de transformação, como, de diferentes maneiras, sempre esteve. O acesso à informação, seus conteúdos e seus suportes se modificam conforme a própria sociedade se transforma. Como consequência, colocam-se novamente em discussão os espaços da biblioteca, suas formas de atuação e o próprio perfil do profissional que trabalhará nesses ambientes.

O que hoje chamamos simplesmente de acervo físico é aquilo que, em um futuro não tão distante, poderá ser reconhecido como obra rara.

Leonardo de Assis, pesquisador do Laboratório de Cultura, Informação e Sociedade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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