Após um segundo turno memorável, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) virou sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e venceu neste domingo (25) a mais épica das eleições para o Palácio do Planalto. A vitória foi confirmada às 21h09, quando Lula batia Flávio por 51,75% a 48,25% – uma diferença superior a 4,5 milhões de votos.
É a sexta vitória da esquerda nas últimas sete disputas presidenciais – e certamente a mais dura. No primeiro turno, Flávio saiu à frente com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Em três semanas, com a queda na abstenção e a força da coligação, Lula recebeu 11 milhões de votos a mais.
Para vencer, o petista promoveu uma reviravolta em sua candidatura. Depois de uma campanha tida como atabalhoada, insossa e até caótica no primeiro turno, o presidente mudou o tom, tomando as ruas e as redes com grandes mobilizações. Mais de 15 milhões de apoiadores saíram às ruas no segundo turno, em manifestações com ou sem a presença de Lula. Quem deu a partida foram os estudantes, ainda na segunda semana de outubro.
Graças à colaboração do deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), a campanha lulista também ganhou tração nas redes sociais. O canal “Exército do Lula”, criado por Janones, reuniu mais de 10,8 milhões de seguidores no WhatsApp. A onda pró-Lula foi reforçada por depoimentos de artistas, jornalistas, esportistas e outras personalidades.
Do ponto de vista político, a narrativa da campanha se tornou mais propositiva e combativa. Lula pautou completamente o segundo turno, forçando Flávio a se explicar e até a se retratar sobre diversos compromissos. O presidente também contou com o “salto alto” do bolsonarismo.
Além da extrema direita – já derrotada em 2022 –, Lula destronou as big techs – em especial, a Meta (dona do Facebook, do Instagram e do Whatsapp) –, que atuou claramente a favor de Flávio Bolsonaro. Sem contar as decisões controversas da cúpula do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com os bolsonaristas André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
Neste domingo, com a conivência da Corte, os prefeitos de Salvador (BA), Bruno Reis (União Brasil-BA), e de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB-SP), descumpriram a determinação judicial de liberar 100% da frota de ônibus do transporte público. Num jogo de empurra, os gestores ora negavam irregularidades, ora as atribuíam a fatores atípicos. Reis ousou dizer que o atraso se deveu à adesivagem de ônibus da capital da Bahia por apoiadores de Lula.
Com mais de 900 ônibus parados na garagem, o caso de Salvador foi tão escandaloso que o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) decretou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade Urbana, Pablo Souza. Presidente do TSE, Nunes Marques demorou a responder a um pedido de providências por parte da coligação de Lula.
Diante da omissão, o Supremo Tribunal Federal (STF) agiu no limite do tempo e prorrogou até as 19 horas o fim da votação em todo território nacional. Mas a decisão, tomada acertadamente em liminar pelo ministro Cristiano Zanin, se revelou ineficaz – a imensa maioria das seções eleitorais já havia concluído a votação.
Nenhuma das manobras, porém, impediu a eleição de Lula, que será o primeiro brasileiro a chegar à Presidência da República no voto por quatro vezes. O anúncio da vitória provocou uma festa das ruas do Brasil. O bolsonarismo não está morto, mas o êxito espetacular de Lula mostra que há esperança – no Brasil, na América Latina e no mundo.

